São Basílio Magno: um exemplo de seguir a Palavra de Deus

Nos primeiros dias do ano, a Igreja dos ritos oriental (1º de janeiro) e ocidental (2 de janeiro) comemora a memória de São Basílio Magno. Chamado de Padre da Igreja, ele se tornou uma luz e um adorno para ela, como cantam os estíquios litúrgicos. Um dos méritos de São Basílio foi ser um ouvinte atento à Palavra de Deus. Por isso, ele interpreta as Sagradas Escrituras e extrai delas uma poderosa mensagem sobre o sentido da vida e do mundo, que ainda hoje ressoa nos corações de muitas pessoas.
Chamado a uma vida de sacrifício
São Basílio Magno nasceu por volta de 329 em Cesareia da Capadócia (atual Turquia). O pai do futuro santo era advogado e retórico, e seu avô morreu como mártir durante as perseguições do Imperador Diocleciano. Na infância, a avó Macrina foi uma das pessoas que incutiram no futuro santo o amor por Cristo. Vale ressaltar que a avó, assim como a mãe Emília, a irmã Macrina e os irmãos Gregório (Nisa) e Pedro (Sebaste) de São Basílio, foram canonizados pela Igreja.
Além de estudar na sua cidade natal, São Basílio também recebeu sólida educação em Constantinopla e, posteriormente, em Atenas, a capital cultural do mundo helênico. Em 355, retornou dos estudos e começou a lecionar retórica, mas sentiu que tal ocupação não lhe era agradável ao coração. Após a devida preparação, recebeu o Santo Sacramento do Batismo e, então, decidiu dedicar sua vida inteiramente a Deus, inspirando-se em exemplos contemporâneos da vida monástica. Para tanto, visitou monges nas terras do Egito, Palestina, Síria e Mesopotâmia, estudando seu modo de vida, as características do ascetismo etc. Dando seus primeiros passos na vida ascética, São Basílio meditou e orou muito em solidão, o que o levou ao conceito de ascetismo, segundo o ideal de uma vida comunitária (cenobítica), diferente da vida eremítica (anacorética). Podemos ler sobre porque a vida em comunidade é mais importante e superior à vida de eremitas na sétima resposta de suas regras mais extensas. Como resultado da escrita de obras ascéticas e do exemplo de sua própria vida, São Basílio Magno entrou para a história da Igreja como um legislador da vida monástica comunitária no oriente cristão. O grande mérito de São Basílio no desenvolvimento do monasticismo é mencionado, em particular, pelo Papa João Paulo II na Carta Apostólica “Patres Ecclesiae”.
Em 370, São Basílio tornou-se Arcebispo de Cesareia da Capadócia. Desenvolveu intensas atividades pastorais, teológicas e literárias. Além de obras de beneficência/caridade, como a construção de hospitais e o cuidado com os necessitados, dedicou-se a impulsionar a vida de oração da Igreja. São Basílio foi também um corajoso defensor da doutrina da Igreja, manifestando-se ativamente contra os hereges que negavam a divindade do Espírito Santo e não reconheciam Jesus Cristo como Deus.
Força vital para a Igreja de Cristo
Ao lermos as diversas obras, cartas, sermões e outros escritos de São Basílio Magno, podemos identificar uma característica marcante de seu estilo, que se caracteriza pelo respeito à palavra de Deus como a mais alta autoridade para toda a Igreja. Essa ideia central se manifesta na frequência de citações bíblicas e, principalmente, em sua sabedoria espiritual na interpretação dos textos bíblicos. “O que caracteriza a fé? A confiança inabalável na verdade das palavras divinamente inspiradas, que não pode ser abalada por nenhum raciocínio gerado pelas leis da natureza ou por uma piedade fingida”, escreve ele. “O que caracteriza um crente? Estar completamente convicto do poder das palavras proferidas e não ousar rejeitar nada nem acrescentar nada a elas. Pois tudo o que não provém da fé é pecado, como diz o apóstolo (Rm 14, 23). “Porque a fé é gerada pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Deus. Portanto, tudo o que não está nas Escrituras inspiradas não provém da fé e é pecado.” [1]
São Basílio Magno se esforça para transmitir a palavra de Deus em toda a sua pureza, levando em conta o fervor e o conteúdo da Sagrada Escritura. Além de suas capacidades intelectuais, ele se apoia na oração e no poder do Espírito Santo para compreender a Palavra e torná-la viva e atuante no presente. Em São Basílio, podemos aprender uma reverência infinita pela palavra de Deus; ele estuda cuidadosamente cada palavra da Sagrada Escritura, como um lapidador que cuida de diamantes para que outros possam ver seu brilho. Essa abordagem expressa o ensinamento inerente a todos os Padres da Igreja: “A Sagrada Escritura era para os Padres objeto de veneração incondicional, fundamento da fé, tema constante da pregação, alimento da piedade, alma da teologia. Eles sempre defenderam sua origem divina, sua inviolabilidade, sua normatividade, sua inesgotável riqueza de força vital para a espiritualidade e a doutrina.” [2]
A Palavra de Deus, que forma o povo de Deus
Segundo São Basílio, ninguém tem o direito de acrescentar ou tirar algo da Palavra de Deus, e o dever daqueles que têm autoridade na Igreja é guiar-se pela Palavra e lembrar ao povo de Deus suas exigências. É nesse sentido que o Arcebispo de Cesareia da Capadócia reconhece a causa do mal na Igreja de seu tempo. Ele estava convencido de que, quando o povo de Deus se afasta da Palavra de Deus, isso leva a um arrefecimento do ideal cristão entre o clero e as comunidades de fiéis. Como consequência, surgem divisões e discórdias que permeiam a vida da Igreja e ameaçam destruir a unidade da Igreja de Cristo. O mal descrito – a falta de obediência à Palavra de Deus – também está presente na Igreja de todos os tempos.
São Basílio Magno nos ensina a não reduzir as palavras da fé a palavras humanas e a evitar a tentação de transmitir “minha” palavra como se fosse a palavra de Deus. Observemos com atenção se a Igreja não se afasta de sua missão quando prioriza ideias, considerações e critérios para a tomada de decisões que não correspondem à Sagrada Escritura. O caminho da fé na Igreja consiste em submeter-se à vontade de Deus, que descobrimos na Palavra de Deus. Assim, a contemplação e a meditação na Palavra são um processo que gradualmente liberta o povo de Deus da primazia das ideias humanas, permitindo que cada membro da Igreja harmonize sua vida passo a passo com os Evangelhos, nos quais encontramos Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado. Esta, segundo São Basílio, é a radicalidade universal do Evangelho, que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (cf. Rm 1,16).
Caso contrário, o ambiente da Igreja corre o risco de cair em extremos, tornando-se um espaço frio ou, inversamente, sufocante, privado do alimento nutritivo do Evangelho. É por isso que a necessidade intrínseca da Igreja impele todo cristão e cristã a encontrar-se com a Palavra de Deus. É isso que nos ensinam São Basílio Magno e outros Padres da Igreja, que consideravam a Sagrada Escritura como fonte de teologia, espiritualidade e guia na vida pastoral. O respeito e a obediência ilimitados ao Evangelho servem à Igreja como guia que lhe permite olhar com sinceridade e verdade para a sua vida, presente e passada, para que o raciocínio ou as teorias humanas não se absolutizem, substituindo assim o Evangelho, e, por outro lado, para que a Sagrada Escritura não seja instrumentalizada em favor de interesses utilitaristas.
Sagrada Escritura – alimento para a fé
Como a Sagrada Escritura não é imediatamente clara para todos, há necessidade de interpretá-la, de revelá-la aos outros, para que a palavra de Deus não fique oculta. São Basílio escreve sobre isso em seu “Comentário sobre o Profeta Isaías”. No oitavo capítulo, ele adverte contra o comportamento dos mestres da lei, que tomaram a “chave do conhecimento” e não apenas não a usaram, mas também proibiram aqueles que queriam entrar (cf. Lc 11,52). Interpretando este texto do Evangelho, ele explica: para desatar o nó da incompreensão da Sagrada Escritura, é necessário praticar a lei de Deus, refletir sobre a palavra de Deus. Em vez disso, os mestres da lei se apegaram à observância literal da Sagrada Escritura e não conseguem revelar os profundos segredos da palavra de Deus, que fala da vinda do Messias a este mundo. Portanto, eles não creram em Jesus Cristo, e o Senhor escondeu o seu rosto da casa de Jacó (cf. Is 8,17). [3]
A interpretação proposta não diz respeito apenas aos fariseus e mestres da lei, mas também a todos os membros da Igreja, especialmente bispos e sacerdotes. Como resultado da falta de instrução do cristão na leitura, meditação e seguimento da Palavra de Deus, ocorre uma substituição de conceitos fundamentais: o testemunho cristão se transforma na observância literal dos mandamentos de Deus como um conjunto de regras, e a fé é deslocada em favor de tendências ou ideologias político-eclesiásticos que destroem o interior da vida da Igreja.
O Papa Francisco frequentemente apontava esses perigos. Em particular, em uma de suas homilias na Casa Santa Marta, ele refletiu sobre a passagem do Evangelho citada por São Basílio Magno (cf. Lc 11,47-54). Segundo o Santo Padre, a razão pela qual os cristãos, tendo recebido a “chave do conhecimento”, não conseguem entrar eles mesmos e não deixam outros entrarem, é a falta do testemunho cristão ao qual Jesus nos chamou. Num cristão que carece do testemunho da fé, ocorre todo um processo espiritual e mental que leva à transformação da fé numa ideologia que repele os outros e distancia a Igreja das pessoas. Como observa o Papa, isso acontece quando um cristão não reza, e se não ora, a porta permanece fechada, e o testemunho torna-se orgulhoso e caracterizado pela busca do próprio engrandecimento. Para superar essa doença, é necessária a oração, que é a chave que abre a porta da fé, torna possível a humildade e, portanto, dá a oportunidade de abrir o caminho para Deus a outras pessoas. [4]
Neste contexto, São Basílio Magno ensina-nos que a oração, assim como a fé cristã, pressupõe um “conhecimento da fé” que provém da Palavra revelada de Deus, a qual encontramos, em particular, nas Sagradas Escrituras. Além disso, a fé não pode ser reduzida a um simples conhecimento subjetivo, mas é uma experiência eclesial, isto é, uma prática cristã que se vive na Igreja em constante relação com o ensinamento da Igreja e o testemunho da fé. Por sua vez, as considerações teológicas que não são confirmadas pelas Sagradas Escrituras devem ser consideradas errôneas e ser condenadas como aquelas que se rebelam contra o conhecimento de Deus. [5]
A Palavra que revela a face de Deus
Assim, São Basílio Magno, pelo exemplo de sua vida e escritos, nos ensina a primazia da Palavra de Deus na Igreja. Para ele, a Sagrada Escritura é a Palavra escrita do Deus vivo. Ela não pertence ao passado, mas ao presente, pois Deus continua a nos falar na Sagrada Escritura. Em sua essência, reside o desejo de Deus de se comunicar com a humanidade. O Senhor revela seu coração e seu plano, mostra sua face, oferece sua amizade e nos convida a compartilhar nossa vida com Ele em seu Filho Jesus Cristo, o Verbo encarnado no Natal. Ao mesmo tempo, a Palavra de Deus nos chama a lê-la, ouvi-la, acolhê-la e proclamá-la, lembrando que é o próprio Deus quem nos fala aqui e agora.
Além disso, São Basílio nos ensina a evitar uma abordagem individualista. A Palavra de Deus nos é dada para construir a unidade eclesial. É uma Palavra que se dirige a cada pessoa pessoalmente, mas dentro da Tradição viva da Igreja. Por isso, é importante ler e ouvir as Sagradas Escrituras em comunhão com todas as grandes testemunhas da Palavra, desde os primeiros Padres da Igreja até os santos de nosso tempo, e em união com o Magistério da Igreja.
Pe. Yakiv Shumylo, OSBM
[1] ВАСИЛІЙ ВЕЛИКИЙ, Морально-аскетичні твори, Свічадо, Львів 2006, 136-137.
[2] CONGREGAZIONE PER L’EDUCAZIONE CATTOLICA, Istruzione sullo studio dei Padri della Chiesa nella formazione sacerdotale, in Enchiridion Vaticanum. Documenti ufficiali della Santa Sede, vol. 11, EDB, Bologna 2001, 26.
[3]J.-P. MIGNE (ed.), Patrologiae cursus completus. Series Graeca, vol. 30, Paris, 1857-1866, 491.
[4] PAPA FRANCESCO, Discepoli di Cristo non dell’ideologia, in URL: < https://www.vatican.va/content/francesco/it/cotidie/2013/documents/papa-francesco-cotidie_20131017_discepoli-di-cristo.html > (in 29/12/2024).
[5] F. PILLONI, Teologia come sapienza della fede. Teologia e filosofia nella crisi ariana del IV secolo, EDB, Bologna 2003, 92-96.


